boletim

7 out

o boletim de uma criança diz muito mais que só números. muito mais do que só notas ou em que matéria ela é melhor.

no boletim tu vês o erro da família,  a falta de atenção, de cobrança ou, oposto, vê o excesso de mimo, o excesso de futilidade ou o excesso de problemas.

me diziam que crianças não tinham problemas. mas elas tem demais. elas não sabem, só. ou não sabem lidar ou não identificam. crianças sentem, mas não sabem sentir. elas não sabem te dizer que aquela nota ruim é porque o papai sempre foi bom em matemática e agora o papai não estuda mais com ela. ou simplesmente não sabem dizer que tem dificuldades de escrever porque tem medo, vai que alguém leia e me entenda?

é muito mais fácil riscar forte na folha, durante a aula de artes, e botar toda a raiva das injustiças e chutar bem forte a bola no gol, na aula de educação física, do que somar, dividir, multiplicar e o mais difícil, talvez, subtrair.

afinal, a vida toda é de subtração. são os irmãos que vão pra longe, os tios que “papai do céu levou”, os primos que não tem tempo… subtraindo aquelas pessoas que sorriam quando era menor e todos pareciam tão grandes, legais e coloridos.

depois que a criança cresce, o boletim diz mais ainda. diz que leu Alvares de Azevedo ou uma canção do Nando Reis, diz o que as fórmulas não representam. diz que deu o primeiro beijo, que divide o tempo entre o novo grupo,  o colégio e os estudos, além do pessoal de casa. ah, tem o outro lado também, diz que não tem grupo nenhum, que só respira notas e concorrências criadas por si; o boletim mostra que na casa do jovem não tem janelas, ele não olha pra fora, só pros cadernos e pra verdade que ele cria.

aquelas somas simples pra alguns pais mostram muito mais do que só valores numéricos. mostra o primeiro amor indo e vindo, mostra que dormiu durante a aula, porque preferiu estudar a noite quando todo mundo dormia pra não incomodar, mostra o divórcio dos pais ou a briga com o irmão. mostra muito mais do que esses meros adultos podem entender. afinal, eles nasceram adultos, eles nunca souberam explicar porque suas notas baixavam ou aumentavam. eles eram apenas dedicados. não tinha essa coisa toda subjetiva e sentimental.

o boletim de uma criança diz muito mais do que ela pode explicar. mas quem precisa ver isso?

 

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